Com Censura

Mariana

Dezembro 29, 2007 · Deixe um comentário

Nunca os meus braços foram tão firmes. E, pela primeira vez, eu enxerguei brilho nos olhos de Mariana. Ali, todos emudeceram. E Mariana sentia vontade de gritar, para se mostrar viva a todos os inertes que nos rodeavam. Isto estava estampado no seu rosto. Estonteante era a admiração por aquele momento; novos aromas, novas cores, novos cheiros, sensações nunca tidas. Felicidade, acima de tudo. 

Mariana era uma jovem como qualquer outra, mas isto ninguém tinha coragem de lhe dizer. Jogaram-na numa cama. Relegaram-na a dó, a compaixão e a morbidez. Tratavam-na como uma coisa imperfeita, diante de todos que andavam, falavam, sorriam… Mariana fazia tudo isso, mas ninguém notava. Mariana sorria, e todos a calavam. Mariana só ouvia “não”, “não pode”, “não dá”…e murchou.

E o mundo era monocolorido, até aquele dia. Mariana não sabia o que eram as árvores, o ar batendo na cara…e eu lhe devia tudo isto. Repousei-a na beira do lago, uma vista que lhe encheu os olhos de lágrimas. Ela titubeou e, antes que caísse, segurei-a com minhas mãos. Ninguém entendia o que fazíamos ali, e olhavam com espanto. 

Se pudesse nunca sairia daquele lugar. Naquele momento Mariana soube o que é a vida: simples como ela, mas irrestrita como não queriam que ela fosse. E sem dizer uma única palavra, eu entendi que seu maior desejo era ficar ali, e não mais voltar à sua cama, à vida indigna que lhe impuseram por ser diferente… 

Ela lembrou de que lhe havia falado de um lugar onde nos sentiríamos no deserto. Olhou-me. Sorriu. E chorou. Sua gratidão me confortou. Partimos em silêncio.

Por Diógenes de Souza (diogenesaju@gmail.com)

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Suas idéias não correspondem aos fatos.

Dezembro 7, 2007 · 5 Comentários

 

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Imagine-se num belo dia de verão. O sol está lindo, não há nuvens no céu e faz um calor terrível. Você não tem para onde correr, pois correndo seu calor vai piorar. Então de repente, não mais do que de repente você tem uma idéia que parece salvar seu dia.

- Uma coca-cola bem gelada, por favor! Exclama.

Nesse momento de sede e agonia, só a coca-cola pode salvá-lo. Você levanta o anel da latinha, o vermelho da embalagem mexe com seu sangue e depois vem o “tsiiii”. Nunca houve som tão agradável aos seus ouvidos. Vem, então, o seu primeiro gole, que parece até aquele seu primeiro beijo de tanta emoção.

O líquido gelado desce por sua garganta e é aí então que toda a poesia morre. Para o seu desprazer não é coca-cola que tem na lata, e sim fanta! Você vê sua emoção padecer e reclama com o garçom, mas ele não pode fazer nada…

É assim com esse clima de frustração, que muitas vezes nos deparamos com pessoas que nos dão uma imagem completamente oposta ao conteúdo. Não estou falando de pequenas frustrações, tipo aquelas de amigos que não correspondem às nossas expectativas, e sim de algo bem mais profundo, de uma falsidade ideológica, de uma profunda distorção de caráter.

Criamos uma imagem nas nossas cabeças sobre as pessoas e passamos a cobrar que elas hajam segundo o roteiro que traçamos. Aí a culpa é, sem dúvida, nossa. Mas há outras que criam uma imagem própria como algo verídico, no entanto há sempre um mais atirado que adverte:

-“Essa coca é fanta!”

Às vezes a personagem está tão bem formulada e articulada que a inverdade é atribuída a quem nos advertiu. Há almas mais sensíveis no mundo do que a gente é capaz de perceber, e são estas que nos salvam.

Por isso devemos ter cuidado com discursos baratos, forçados, sugado de outros. Esteja sempre atento àquilo que te rodeia. Não é porque uma pessoa está com os cabelos molhados que significa que ela tomou banho. Para saber se eles foram lavados é necessário sentir o cheiro do xampu e, ainda assim, há muito mais meios de fazê-lo cheirar sem tê-lo necessariamente lavado. Mas aí, paciência!

Repito: sempre desconfie antes de confiar! É mais seguro, prático e econômico. Assim, você evita alguns machucados desnecessários ao coração. Isso significa que devemos desacreditar de todos? Absolutamente. O que digo é que só desconfiando que você poderá enxergar determinada pessoa como credível, lembrando sempre que alguns deslizes acontecem, com todo mundo. Afinal, ainda somos ecologicamente incorretos.

Honoré de Balzac disse que meio-termo jamais: ou se tem total confiança ou nenhuma. Ele referia-se aos criados, mas nada nos impede de aplicar esse método em indivíduos do nosso meio.

Devemos sempre nos questionar se as idéias que possuímos correspodem ao cotidiano das nossas vidas, se correspondem aos fatos. Pois só desta maneira teremos a consciência tranqüila quando alguém gritar:

-Essa coca é fanta!

Por Michel Oliveira (mytchels@hotmail.com)

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